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" Entrevista ao Tio Zilo"
01Ago2006 09:03:15
Publicado por: José Pernicas Silva

Tio Zilo

Tio Zilo antigaComo já referenciado em "Factos e Curiosidades – Livros e Autores de Carapeços" o conhecido Tio Zilo foi uma pessoa carismática de Carapeços. Escreveu o livro "Poemas do Zilo", editado em 1998, e muitos outros poemas.

O seu nome de batismo é José da Costa, nasceu a 13 de setembro de 1920 e possuía a 4ª classe.
Escreveu várias quadras e tinha uma vasta coleção de figuras fantasmagóricas feitas com o seu canivete a partir dos ramos e das raízes das árvores.
O Carapeços Online entrevistou o Tio Zilo no ano de 2006.

 

Entrevista ao Carapeços Online:

Carapecos Oline - Tio Zilo, onde nasceu? Quem eram os seus pais e quantos irmãos eram?
Tio Zilo – Eu nasci no lugar da Areeira, na casa que é hoje do Sobreiro. Ali mesmo ao lado do "café do Gusto". Ali cresci e morei durante bastante tempo, mas depois tivemos que sair porque a casa foi licitada pelo tribunal e viemos morar para aqui, para o lugar do Monte, propriedade que era da minha avó Josefa da Costa, que na partilha, à morte desta, passou a pertencer ao Costa e Silva (em troca das muitas dívidas deixadas pela proprietária, a maior parte das quais em comestíveis, na casa de comércio que ele tinha em Barcelos), de quem a minha mãe "Carmentina da Costa" era irmã. Mais tarde deu isto ao meu irmão Domingos. Havia mais uma irmã, chamada Carolina (essa morou em Pereira, foi para lá servir e para lá ficou). Eu era filho de pai incógnito.

C.O. - Quer dizer que você era o único filho de pai incógnito?
T.Z. - Não! Eles também eram! Naquele tempo usava-se! (risos). Ao todo eramos 5 irmãos, o Luís, o Domingos, a Alzira, a Maria e eu.

C.O – Sei que tem a 4ª classe, onde foi a sua escola e quem era o seu professor?
T.Z – A minha Escola foi na sede que existia ao lado da Igreja, onde se encontra hoje a Capela Mortuária (por cima). Foram três os meus professores. Eu até aprendia bem, mas por falta de dinheiro para comprar o livro da 4ª classe, a minha mãe tirou-me da escola. Fiz a 4º classe na tropa.

C.O. – Com quantos anos começou a trabalhar e a ganhar dinheiro?recorte de jornal Zilo
T.Z. – Comecei a trabalhar com 8 anos, com o meu irmão Luís, na construção. Mas naquele tempo era preciso levar uma sachola e trabalhar de graça durante alguns anos. Só depois de uma pessoa se "desimerdar" passava a ganhar 2 ou 3 tostões por dia. Isso só aconteceu quando eu tinha 12 anos. Um artista ganhava 25 tostões. Comecei por fazer a massa e acarretá-la à cabeça. Lembro-me que naquele tempo as jornaleiras iam trabalhar daqui para o Faial por 25 tostões. Os lavradores ainda vendiam um pouco de vinho e um pouco de milho. Era pouco para eles comerem. Passavam-se misérias.

C.O. – Disse-me que levava a massa à cabeça! Numa gamela?
T.Z. – Nesse tempo nem gamelas haviam. Era uma tábua. Por vezes a massa era mole, caía por mim abaixo e deixava-me todo "borrado".

C.O. – Frequentou a catequese? Quem era o padre nessa altura?
T.Z – Sim, frequentei a catequese. Na altura com o Padre Miranda. Foi ele que me ensinou a doutrina. E levei umas boas caneladas pela cabeça abaixo. Mas até com alguma razão, porque eu, às vezes também era macaco.

C.O. – O padre dava bolas para vocês jogarem?
T.Z. – Não!!! Qual bola, qual carapuça. Nós chegávamos a fazer bolas de farrapos, com uma meia. Entretínhamo-nos mais ali no adro, a jogar à cabra cega e ao jogo da Barra. Sei que nesse jogo se fazia um risco no chão, mas não me lembro bem. Caraças! O tempo passa e não me lembro.

C.O. - Nessa altura nos batizados já havia confeitos?
T.Z. – Sim. Quando chovia até do meio da lama os apanhávamos. A fome era tanta!

C.O. – Conte-nos lá, como era para repicar o sino nos batizados?
T.Z. – O Padre tinha a mania de deixar a chave debaixo da porta (havia um buraco) para irem tocar o sino para a missa pela manhã. Nos batizados iam lá e rapavam-lhe a chave. Quando um gajo se preparava para ir repicar, já estava alguém na torre, com a porta fechada. Depois, eu fazia na mesma.

C.O. – Em troca de repicar o sino, o que recebiam dos familiares do batizado?
T.Z. – Davam um trigo ou dois, consoante as pessoas. Se fossem mais ricos davam dois, se fossem mais pobres davam só um.

C.O. – E os círios?
T.Z. -Tínhamos que andar "a pau" para sermos os primeiros a chegar, senão, quando chegávamos, já estavam nas mãos de outros.

C.O. – Disse-me há dias que remiu o confesso. Porquê?
T.Z. – Eles (os Padres) queriam saber quantas um homem aguçava. Se eram viúvas, se eram novas, se eram velhas... Eu comecei a magicar naquilo. Havia as confessadas e lembro-me que me confessava ao Padre Fonseca, que era da ordem do Seminário da Silva. Ele era um pouco amacacado, mas eu também já ia um bocado. Ele ainda me queria dar benção. Dizia-me para me ajoelhar. Mas eu disse-lhe: "Estou confessado para uns anos". E remi.

Zilo  lendo o jornal C.O. - Era crente do padre Alberto Barbosa? Diga-me porquê.
T.Z. – Sim. Eu era e sou, porque ele, no tempo da fome, repartia com os pobres. Lembro-me que foi ele quem criou os filhos da Né, o Pepe e o Aurélio. Outra ocasião, aqui o Tio Mota, que morava ali abaixo, teve uma doença muito grave como a tuberculose e foi ele que o tratou. Muita gente se apegou a ele. Agora não sei, que não tenho lá ido, mas antes, no cemitério, tinha sempre uma lamparina acesa na sua campa. Eu um dia prometi um litro de azeite, mas aconselharam-me a dar a esmola em cera, porque já tinham tirado de lá a lamparina. Ele ajudou muito os pobres naquele tempo e acreditei que estaria santo. Um dia vi-me aflito e pedi-lhe para ele me dar um jeito à vida. Foi o que aconteceu. Acabei por receber a graça pedida.

C.O. - Falou-me que as pessoas que iam moer, por vezes eram assaltadas. Diga-me lá porquê.
T.Z. – Naquele tempo só tocava uma m**** a cada pobre. Os lavradores ficavam com algum milho escondido, porque até os lavradores eram racionados. Não podiam comer o que queriam. Era um quarto de quilo ou meio quilo por pessoa. Agora não me recorda bem. Até os taberneiros racionavam. Davam conforme o número de pessoas que faziam parte da família. Quando se via um lavrador a ir com uma saca de milho para o celeiro, saíam-lhe ao caminho e ele tinha que repartir pelos pobres.

C.O. - Dê-nos uma ideia de como era o Monte de Carapeços no seu tempo de rapaz.
T.Z. – O Monte não tinha nenhumas árvores, era só mato e erva. Quando eu não tinha serviço nas obras, ia com as ovelhas para o monte. A minha mãe criava ovelhas para, de vez em quando, vender uma para fazer dinheiro. Mesmo assim, nós tínhamos que andar "a pau" com a escrita, porque havia lavradores que não queriam que andássemos nas boiças deles. E quando nos viam, tínhamos de fugir com as ovelhas para outro lado. Era vida muito dura naquele tempo rapaz!Tio Zilo Atual

C.O – O monte de Carapeços e de S.ª Leocádia nestes últimos anos está constantemente a arder. Diga-me se será só mão criminosa ou será que o calor deste tempo é mais que no passado?
T.Z. – O monte arde porque o fogo é pegado. Eu uma vez estive a experimentar com um vidro virado para o sol e uma ruminha de erva seca. Incendiou! Por isso, para mim, isso é "lero lero"! Não acredito! Há alguém que chega lá um "tiçãozinho"! Eu até já ouvi dizer e acredito. Os gajos põem uma velita a arder num pouco de erva seca. Mas, se calhar, agora já devem fazer de outra maneira. Levam uma garrafa de gasolina no bolso, estendem-na e pegam-lhe o fogo. Quando chegam os bombeiros já ardeu tudo.

C.O. – Anda por aí uma fotografia publicada num livro em que o vemos em cima do moinho de vento. Eram dois os que lhe faziam companhia na mesma foto. Quem eram e o que faziam em cima do moinho?
T.Z. – Ora bem, quem estava comigo eram o Chico Gramosa e o Marmanjo da Quinta. Já morreram ambos. Eu tenho para aí mais fotografias! Nós em cima do penedo da risca. O Chico é que levava a máquina. Nesse dia levamos uma merenda. Uns pagavam e os outros cozinhavam. Levávamos uns bolinhos de bacalhau.

C.O. - E levavam vinho também?
T.Z. – É claro! Nós íamos preparados. Os que pagavam iam mais livres. Os que não pagavam iam mais carregados com o merendeiro. No fim nós apanhávamos uma cabrita do caraças (risos).

C.O. – Era ao Domingo?
T.Z. – Não. Era quando nos lembrássemos. Era qualquer dia.

C.O. – Para além desse moinho, havia mais algum? Moíam farinha presumo eu. Como faziam chegar as fornadas ao alto?
T.Z. – Havia três. Mas que me lembre, só vi dois a moer. Um grande e um pequeno. Do outro só restavam os alicerces. A minha mãe em casa mandava-me olhar para o monte, para ver se tinha um pano içado num pau junto ao moinho. Se tivesse o pano, era sinal que estava livre e, então, era a altura de ir com as fornadas às costas. Lembro-me que o último dono dos moinhos foi o Valério. Ele, pouco depois, comprou o Moinho que é hoje propriedade da Junta. Situava-se entre o moinho do Pedrogo e a Azenha dos Crespos. Para ali moer, comprou um jerico, para ir buscar as fornadas a casa das pessoas. Do moinho de vento, nem o "raio" das pedras dos alicerces escaparam! Agora nada existe no local.

C.O. – No seu tempo de namoro, refere-se a duas raparigas daquele tempo. Mas esse namoro não deu certo. Porquê? E porque não procurou outras para casar, já que namorou sempre?
T.Z. – Fiquei desorientado, como diz o outro. Depois comecei arranjar viúvas. E eram jeitosas para os aguços.

C.O. – Nunca pensou em casar?
T.Z. – Não. Desde que comecei a ficar desorientado nunca mais pensei em casar. Fiquei por conta da Laura, como diz o outro. Eu ainda disse uma vez ao padre que tinha quatro raparigas e ele disse-me que assim não me podia absolver dos pecados. Mas eu disse-lhe: "Não faz mal!". Eu não ia ali pedir esmolas. Afinal se eu casasse com uma, as outras ficavam a chorar. E ainda disse ao padre que ia arranjar outra. Ele disse-me: "Ainda cismas em arranjar outra?". Até as orelhas lhe arrebitavam, como diz o outro.

C.O. – Tem filhos?
T.Z – Só tenho dois perfilhados. Mas, de resto, foi tudo "à cão". Sabes o que significa a cão? (risos)

C.O. – Como se chamam?
T.Z. – Um é o Amadeu que está em França. O outro, verdadeiramente, até nem sei o nome dele. Não sei se é Francisco. Ele está lá para o Canadá.

C.O. - Você sabe que tem quatro filhos pelo menos?
T.Z – Quatro eram só numa! Depois era mais o Amadeu e uma Petrica. Para aí uns seis ao todo!

C.O. - Era complicado nessa altura evitá-los?
T.Z. – A única forma era desencaixar. Mas se calhar às vezes já era tarde e o azeite já tinha encandeado a luz. (risos)

C.O – Já esteve na Venezuela e em Cuba. O que mais gostou de ver?
T.Z. – Bem, em Cuba foi só de passagem, assim como passei em Miami (E.U.A.). Como íamos de barco, quer saíssemos do barco ou não, tínhamos que nos apresentar na sala do comissário dos governantes da América. Eu pensei que só seria preciso apresentar-se quem tivesse que sair do barco, mas eu como estava um bocado doente não fazia caso, mas como o altifalante continuava a paurrar, lá fui também. Como estava meio doente disse cá para mim: "Deixa-me c**** para eles". Lá fui eu por uma avenida abaixo.

C.O. - Já na Venezuela, não gostou de ver capotes?
T.Z. – É verdade, os caixões eram pretos! Feios. Passava lá um todos os dias com capotes. Nos funerais, os mortos só iam acompanhados se alguém levasse cachaça, senão ia uma carroça só com ele dentro. E depois era assim: "Vai pró senhor". E bebiam um golo. Era como aqui antigamente. Também levavam um ramo para rezar um padre-nosso no adro da Igreja! (Agora não há nada disso, se bem que eu ultimamente não tenha ido aqui aos funerais). Lá, como disse, era a moda da cachaça. Vai pró senhor! Um golinho. Vai pró senhor! Outro golinho.

C.O. - Trabalhou um ano na Venezuela. Teve que vir embora por causa da saúde?
T.Z. – Trabalhei lá nas obras. Depois comecei arruinar-me e tive que me vir embora. Eu estive sujeito a uma tuberculose intestinal. Já tinha tido colite antes de ir e lá foi-se agravando. Já no barco de regresso a Portugal, os médicos disseram-me: "Eles não estavam a tratá-lo. Estavam a matá-lo." Parece que aquilo era derivado do fígado e não me estavam a tratar do fígado, mas sim dos intestinos! Se não viesse embora, estava sujeito a deixar lá a pele.

C.O. -Viu lá coisas bonitas?
T.Z. – Gostei de apreciar certas coisas. Uma delas foi visitar os cemitérios. Como era um país quente e pelos Santos sachavam aquilo tudo... Não tinham jazigos como aqui! Só punham o molde na campa. Um dia perguntei: "Mira, que significa cavar as campas?". Responderam-me: "Para que a terra se lhe torne mais leve!". "Ai bom!" – Respondi eu, admirado. Também gostei de ver a Páscoa. A bênção dos ramos é como aqui, mas não andam a dar a cruz a beijar. Lá, todo o Venezuelano, pobrezito, com umas sapatilhas nos pés, ia à Igreja buscar água benzida. Nesse dia de Páscoa estava um padre e mudava de hora em hora, porque aquilo também cansava. Tinham lá uma grande pia em frente ao altar e depois com uma colher, como quem tira caldo, a encher os frasquinhos. Eu perguntei: "Mira para que é isso?".Respondeu: "Temos que ter água Santa em casa." Não sei se era por ser terra do diabo ou se foi coisa que lhe meteram na cabeça.

C.O. – Também disse que Cristo pregou aos seus discípulos mas que eles eram moucos. Porque diz isso?
T.Z. – Cristo disse: "Amai-vos Uns aos Outros". Mas eles, com aqueles cabelos grandes, ouviam mal e, com uma mão nos ouvidos, perguntavam: "O que é que o Cristo disse? O que é que Cristo disse?" Amai-vos uns aos outros como eu vos amei, mas eles como interpretaram mal e já eram macacos naquele tempo disseram: "Ele disse f....... uns aos outros. É por isso que o mundo anda ..........

C.O.- Diz-me que meio mundo já é do diabo, mas que mesmo assim não se contenta. O que pensa então que vai acontecer?
T.Z. – O Cristo já começa a estar cansado. E tem razão! Há tantos anos a trabalhar e agora vê o mundo todo f....., com o povo a transformar isto. Deu-lhes inteligência até para eles se matarem. Um dia o povo vai estudar aí uma ratoeira. Quando se contornar vai estourar aí uma bomba e acaba com a humanidade.

C.O. – Disse-me que tem um livro em que fala do seu tempo de guerra. Onde teve a sua carreira militar?
T.Z. - Foi em 1942-1943 em Lisboa – Caçadores 5. Andei lá 28 meses! Eu apanhei três ou quatro incorporações. Lembro-me que houve uma altura em que fui a Alcântara para levantar o azeite com uma senha. Entretanto dei com uma mulher a chorar que disse que tinha lá passado a noite e, mesmo assim, não teve senha. Então eu tive pena da mulher e dei-lhe a minha senha e assim a mulher pôde levantar o azeite e levar para casa.

C.O. - Falou-me de mobilizar mulas e cavalos para ficar de prevenção para a guerra, pois naquele tempo nem carros haviam.
T.Z. – Nós fomos num comboio fretado pelo Exército (lembro que nessa altura da guerra até os camionistas particulares eram obrigados pela tropa a parar e serem mobilizados também) para ir a Beja carregar os cavalos e vínhamos para a Régua. No meio deles, levávamos as mulas até Lamego a pé, para entregar no Quartel.

C.O.- E comer? Como era na altura? Era conserva?
T.Z. – Não. Os comandantes, de vez em quando, chamavam-nos e davam-nos o pré. Eu não me lembro quanto era, mas dava para comer. E mesmo assim a comida estava racionada. As tascas não davam tudo o que nós queríamos. Já em Lamego, ao olhar para aquelas tascas, víamos em algumas delas uma cabeça de porco pendurada na porta de entrada. Era sinal que dentro havia sarrabulho. Entrámos e começamos a comer. De repente, apareceu um soldado a dar a ordem que o comboio estava para arrancar. Eu disse: "Agora tanto vou para Lisboa (Caçadores 5), como vou para o Minho". Nós estávamos cheios de fome e eu disse: "Agora temos que comer." E assim foi.

C.O – Os cavalos e mulas eram dos particulares. O estado chegava ali e levava tudo o que queria sem pagar?
T.Z. – Era assim mesmo! Ainda deixavam uma mula para cada dono. Se tivesse muitas deixava mais que uma, de resto ia tudo. Lembro-me que até as mulas do Sr. Guilherme de Faria, de Carapeços, estiveram para ir (tinha duas). Mas ele andou "a pau" e safou-se nessa altura.

C.O – Está revoltado com este mundo atual? Como gostaria de ver Portugal a ser governado? Sem ministros?
T.Z. - Sabe o que eu escrevi? Parece que não está nos livros que eu escrevi. Isso está para aí a molhos.

Prometi um forcado ao diabo de S. Bento

Para meter governantes, ministros e deputados pelo inferno dentro.

Eles todos dentro dum braseiro, era a maneira de acabar com a ambição do dinheiro. Eles vão para o poleiro por causa do dinheiro. Não é para trabalhar!

uma das malas

C.O. – Hoje vê a sua terra mais moderna, com bons caminhos, boas escolas, boas casas, mas perdeu as natureza dos ninhos, dos melros, dos pintassilgos, dos ribeiros, das uveiras, cerejeiras, que se estendiam por esses baldados até perder de vista. Tem saudades desse tempo? Ou vê o mundo a caminhar para o seu fim?
T.Z – É verdade que tenho saudades desse tempo. Agora nem sequer ouço por aqui o cuco a cantar. O cuco por estas alturas já andava por aí a cantar. Já o ano passado o ouvi poucas vezes. Este ano ainda não ouvi vez nenhuma. Os pássaros têm desistido! São cada vez menos. Os melros ainda os vejo ali na Quinta da Coutada. De manhã, quando vou ao café levo um pouco de miolo. Há lá um sítio em que eles estão à minha espera. Eu solto-lhes ali o miolo e mais abaixo olho para trás! E já estão lá todos a limpá-lo. Estou a ver se tenho mão neles! Blandisquinhas também ando a manter aqui uma, a ver se ela não vai, porque é linda. A minha mãe dizia que as blandisquinhas eram bichinhos abençoados e as formiguinhas pretas eram do Senhor. Por isso ela dizia para não as matar. Cada vez se vê menos destes bichinhos. É como as cobras! Eu que moro à beira do monte, dantes via muitas. Agora não sei se é das águas do monte estarem quase todas encanadas, poucas se vê. Dizem que as cobras bebem muita água e poderá ser disso. Às vezes, na Quinta da Coutada ainda aparece uma espalmada. Elas, de noite, lá andam a passear e lá vem um automobilista e passa-as a ferro. Elas comem coelhos! Eu também não acreditava, mas uma ocasião vi no monte. Quando houve um fogo grande, nós fomos ver o fogo e ao ir pelo monte fora ouvimos um coelho a chiar ali por detrás da "Fialão". Fomos ver. Lá estava uma, toda enroscada num e a mamar debaixo de uma mão (dizem que primeiro mamam o sangue e depois mamam o resto). Eu e o Tomé dos Tomeses queríamos matar a cobra, mas não queríamos matar o coelho. Então eu tive uma ideia. Fui por cima duma pedreira e deixei cair uma pedra. A cobra desensarilhou-se do coelho. O Tomé, com um bastão, matou-a e fomos metê-la no meio do fogo. Derreteu de tal forma que só ficou a espinha. Nós ainda chegamos a pensar que tinha fugido, já que não víamos nada!

http://www.carapecos.com/content/view/875/66

Zilo na Capela de S. Marinha

Curiosidades sobre José da Costa

- Nasceu a 13 de setembro mas só foi registado a 19 do mesmo mês, para não ter que pagar multa, daí, conste essa data no seu B.I.
- Chamava baraças ou guitas aos agentes da autoridade. Segundo ele, prendiam as pessoas, daí esse nome!
- Das muitas velharias que tinha guardadas, tinha uma cama que comprou ao Costa e Silva por 500 escudos na década de 1960, toda ela em castanho, mandada fazer de encomenda para o seu casamento.
- Lembrava que as pessoas gostavam muito do Costa e Silva porque servia bem no seu estabelecimento. A medir o azeite era sempre a transbordar, mas poucos sabiam que no fundo da medida tinha uma cortiça!
- Guardava consigo uma carta de resposta a uma que escreveu em 1968 a Salazar, o Chefe da Nação, sobre um pedido por si feito para ir trabalhar para Angola, mas que não foi aceite, porque a única forma de ir era na condição de colono.
- Tinha várias malas com dezenas de agendas de bolso guardadas, cheias de quadras suas e dezenas de cadernos, onde para além das quadras encontrámos também os seus pensamentos. Impressionante!
- Dentro de malas velhas ainda guardava a sua ferramenta (hoje inexistente), que pela sua aparência aponta para os anos 40.

Tio Zilo Militar 1941  Tio Zilo Atual 2

 

 

 

 

 

 



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